A Pele que Habito

    A Pele Que Habito

    La piel que habito

    Loucura. Fúria. Paixão.
    1 h 57 min
    Metadata
    Título A Pele Que Habito
    Título Original La piel que habito
    Diretor Pedro Almodóvar
    Tempo de Filme 1 h 57 min
    Data de Lançamento 17 de agosto de 2011
    País  Spain
    Orçamento $13.000.000
    Receita $5.774.854
    Atores
    Estrelando: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Eduard Fernández, José Gómez, Blanca Suárez, Susi Sánchez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo, Chema Ruiz, Buika, Ana Mena, Teresa Manresa, Fernando Iglesias, Agustín Almodóvar, Miguel Almodóvar, Marta R. Mahou

    Coloque-se na sua pele! Algumas notas para quem viu o último Almodóvar

    por Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira
    (Profa. de Literatura Portuguesa da UFF)

    A primeira imagem é a do dorso desnudo da mulher que fascina o vingador. Ali está um corpo transformado pela arte de um cirurgião plástico, interpretado por Antônio Bandeiras, no último filme de Almodóvar, A pele que habito. Aos poucos, por meio de flashbacks, o espectador reconhece o estilo inconfundível desse Diretor espanhol que sabe tratar com profundidade questões de amor e morte, sexualidade e poder. Aqui se observa um feroz e oblíquo libelo contra a intolerância frente a opções não-heterossexuais; oblíquo, porque não se dá a ver de modo direto e sim de forma especular como na tópica carnavalesca do mundo às avessas; feroz, porque, à sua revelia, este corpo foi alterado com uma violência que o espectador custa a reconhecer. Pelo rompimento da linearidade narrativa, voltamos ao passado recente para saber que, por acaso, o dono do corpo esteve a ponto de estuprar a filha do médico, tornando-se por isso a vítima do psicopático pai que o caça na estrada e o mantém preso como um animal na masmorra de sua luxuosa clínica onde realiza afamadas, ousadas e controvertidas experiências científicas.

    A Pele que Habito - Novo filme de Pedro Almodóvar

    A Pele que Habito - Novo filme de Pedro Almodóvar

    A ferocidade paterna é compreensível embora o estupro não se tenha concretizado em vista da reação histérica da moça que, àquela altura, estava sob forte tratamento psiquiátrico. Por sua vez o presumido estuprador havia ingerido alguma droga, mas não o suficiente para perder a cabeça, o que lhe permite afastar-se da cena com prudência depois de rearranjar delicadamente as roupas da moça. Torna-se claro que sua opção heterossexual não está em causa, pois gosta de mulheres, trabalha para elas e com elas – sua mãe e uma funcionária lésbica(?) – divide uma loja de roupas femininas. No entanto o zeloso pai da donzela interpreta mal alguns sinais deixados pela moça no caminho – um casaco caído, uns sapatos abandonados – e acaba por encontrá-la desacordada no bosque, ao pé da árvore, mas inteiramente composta. Ao dobrar-se sobre a filha, que abre os olhos, acontece nova cena histérica, agora contra o pai que a menina supõe ser o estuprador, o que agrava fatalmente o seu estado psíquico daí em diante.

    Que melhor desforra do que submeter o violentador ao mesmo tipo de violência experimentada pela sua filha? Desse modo o Dr. Ledgard prepara lentamente o prato frio da vingança na pele do jovem sequestrado. Graças a procedimentos cirúrgicos bem sucedidos, eticamente contestados pelos colegas médicos, a vítima toma a forma de uma linda e doce criatura dotada de todos os atributos femininos, em especial uma vagina artificial cuja destinação é clara: o vingador prepara o canal para a vingança. No entanto, a criatura acaba por ganhar a admiração e a confiança do seu criador (o velho tema de Pigmaleão), fazendo-nos esquecer sob aquela pele “feminina” habita um homem que sofre. Este é um esquecimento provocado pela genialidade de Almodóvar que traz à tona uma pequena verdade invisível: a violência de se ter um corpo em desacordo com a alma. Para escapar da opressão, Vicente / Vera (dupla onomástica do personagem) disfarça o seu dissabor e seduz o carrasco. Depois de muitas peripécias para se libertar, busca nas duas mulheres o refúgio e o apoio de que precisará daí para frente.

    No jogo especular de gêneros que cruza sexualidades, a obra convoca um espectador ideal, espécie de “leitor ideal”na terminologia de Humberto Eco: o macho heterossexual incapaz de compreender a irreversível situação de se possuir uma alma feminina num corpo grosso e peludo, tal como a que vive o próprio Diretor, homossexual assumido. Vivendo de forma inversa a mesma dissonância – uma alma masculina num corpo feminino – , Vicente é o personagem com o qual o espectador homofóbico é chamado a se identificar, a se comover e, quem sabe?, entender e reverter o preconceito por meio da experiência de se colocar na sua pele.

    Em suma, o filme é um libelo contra dois tipos de violência: a que é praticada pelos médicos prepotentes, donos dos corpos, na suposição de que sabem o que é melhor para os pacientes; e a que é dirigida por este mesmo tipo de gente contra homossexuais cujos corpos são vistos como imperfeitos por não combinarem com suas almas. De tudo isso deduz-se a postulação da soberania do desejo como forma de ultrapassar os violentos desacordos entre corpo X espírito ou pele X identidade sexual.

    Recado dado, recado entendido. Na pele que (bem) habita, caberia ao Diretor levantar alguma estatueta de Melhor Filme da temporada. Simplesmente genial!

    Veja o Trailer do Filme A Pele Que Habito

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    20 Comentários

    1. Ludmila

      Maravilhosa a sua critica professora Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira.

      Ainda não assisti o filme, mas você me despertou uma enorme curiosidade para ve-lo!

    2. Nelson

      Concordo 100% com a resenha, enquanto nos perdemos em filmes hollywoodianos de ets, guerras, deixamos de apreciar obras tao sutis e inteligentes como esse grande filme.

    3. Bruna

      Eu amei esse filme, e ainda contando com antonio bandeiras, um dos maiores galãs do cinema mundial.

    4. Dr Oswaldo

      O filme trata com sutileza alguns temas realmente profundos. É uma obra prima, e concordo com você professora, esse filme deveria receber um oscar. Parabéns pela resenha muito bem escrita!

    5. Maria Lúcia

      O filme reúne sutileza, como disse Nelson, e profundidade, como lembrou o Dr. Oswaldo. Queria vê-lo de novo, mas como não dá bilheteria, apesar do Bandeiras, só passa em cinemas especiais do Rio. E eu moro em Niterói. O título é belíssimo. “Pele” tem vários sentidos: superfície, corpo em profundidade, território. Ao dizer “habito”, esta identidade também é escorregadia porque se trata de uma opção – habitar ou não-habitar – e não uma condição essencial e fixa.

    6. Luis Maffei

      Mesmo eu, que tenho severas restrições à estética almodovariana, fiquei com ganas de ver o filme, em virtude das certeiras e bem escritas palavras de minha querida Maria Lúcia. Pelo que li, pensei no único filme do espanhol que de fato me mobilizou, A LEI DO DESEJO. Obrigado pela dica e pelo belo texto.

    7. Junior

      Parabens pela critica do filme, ficou maravilhosa!
      Amei o filme, cada traço marcante que nos leva a julgarmos tanta coisa nessa vida.

      Recomendo a todos!

    8. scheila

      um filme que realmente fica no pensamento por muito tempo, maravilhoso sem sombra de duvida….somente ALMODOVA. bravo…bravo….bravo…..

    9. marta mariano

      estou maravilhada por ter o prazer de assistir um filme tão bom,não paro de pensar

    10. Letícia Zanetti

      Não sei se me perdi em algum momento, mas qdo Vicente diz à Cristina que está com o vestido de 5 anos atrás, fiquei sem entender o momento em que ele recuperou o tal vestido. Ele foi as compras um dia antes de fugir, mes encontrar o mesmo vestido…achei estranho.

    11. Marcelo_Osasco sp

      Letícia Zanetti

      Também achei estranha essa cena do vestido, alguem poderia desvendar

    12. Débora

      Maravilhoso! Com certeza o melhor filme de Pedro Almódovar!

    13. alexandre Quatrini

      esse filme nos faz refletir sobre a mente humana , o fiel entre a loucura e a razão é muito tênue e almodovar expressa isso muito bem,ótimo filme!

    14. maria de fatima rabelo profeta

      Assisti o filme meio que esperando muita coisa e acabei perdendo os pequenos detalhes, importantes para entender fatos, como exemplo cito a questão do vestido… vou assistir novamente e volto aqui para, caso encontre uma explicação para tal, tentar dar a minha versão sobre…

    15. Alexandre Afonso

      Pessoal, isto sim é um filme bem escrito e com um final surpreendente, principalmente na hora que nos damos conta que aquela mulher é o homem que inconsequentemente estrupou a filha do Dr.
      Este diretor esta de parabéns pois o filme deixa todos perdidos sobre o que esta acontecendo e num exato momento todos somos surpreendidos com a idéia genial do final do mesmo.
      Enquanto flmes de BANDIDOS, FIM DO MUNDO, EXTRAS TERRESTRES, se perdem sempre numa mesma história e final, este tem uma idéia de GÊNIO, pois é um filme muito bem pensado.
      Parabéns ao diretor.

    16. Osmar Átila

      O filme é deveras interessante, a sutileza nos detalhes tipo: a fissura de Vicente por Cristina, aproveitado pelo autor para o arranjo do vestido ao final do ato como prova, pois, o pressentimento de Vicente de algo poderia lhe acontecer, no diálogo com Cristina “não abandone minha mãe, caso eu desapareça”.

      Uma outra leitura do filme: o mesmo ventre e duas personalidades marcantes – uma crescida num ambiente propício às coisas ruins (Zeca), e o outro num ambiente propício às coisas boas num mundo de ciências (Dr. Roberto); o meio influencia ou não? Eis a questão posta.

    17. Amanda Santos

      Gostei da resenha, mas estou surpresa por não ter visto nenhum comentário corrigindo a confusão do autor do texto. Ser homossexual e ser transexual são coisas extremamente diferentes. Enquanto o homossexual gosta de pessoas do mesmo sexo, o transsexual se identifica com características do gênero oposto. O personagem do filme, ao ficar “preso” em um corpo feminino, passa pela experiência de uma pessoa transexual., e não homossexual.

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